28 de out de 2009

Cartas que o Papai Noel não recebeu.

Antes de começar a ler esse texto, você deve saber um pouco mais sobre quem o escreveu. Maria Lúcia Putini Barsuglia, uma das mais respeitadas psicanalistas do Brasil, especialista em Psicoterapia Psicanalítica de Família, Casal e Grupos Institucionais e em Psicanálise da Criança e do Adolescente. Tem artigos publicados em revistas e sites relacionados à saúde e ao comportamento, que visam, através dos ensinamentos da Psicanálise, refletir sobre as situações cotidianas. Saudades de você Lú.

Texto sobre uma situação ocorrida em um dos seus atendimentos no divã:

"Recentemente foi divulgado pela mídia um caso de uma garotinha que enviou uma carta ao Papai Noel pedindo para não mais ser molestada por um membro de sua própria família. Essa carta chegou às mãos de sua professora que indignada decidiu denunciar para que providências legais fossem tomadas. Essa notícia chegou novamente até mim através de uma menina de nove anos que eu acompanho em trabalho de psicoterapia. Manuela surpresa comentou: “Olha só que pedido diferente para o Papai Noel, acho que aquela menina estava sofrendo há muito tempo e não podia reclamar!”. Manuela foi muito sensível ao fazer essa observação e, a partir daí, pudemos conversar sobre quais os pedidos e reclamações que nunca fazemos ao Papai Noel. Não se trata de brinquedos, roupas e viagens, mas daquilo que realmente poderia nos deixar mais leves e felizes. Foi uma boa conversa! Passei, então, a ficar com os meus ouvidos mais apurados ao tentar compreender e decifrar quais foram as cartas que ainda não puderam ser enviadas não só pelas crianças, mas também pelos adultos que eu acompanho. Foi uma rica experiência. Escondido entre videogames de última geração havia pedidos desesperados de atenção e presença dos pais, camuflados em bonecas cada vez mais parecidas com meninas humanas havia o desejo de ser vista como alguém de verdade, por detrás de um anel valioso havia a esperança de uma promessa de fidelidade. Vi-me diante de uma infinidade de desejos; alguns impossíveis de serem realizados, outros, no entanto, absolutamente possíveis se fossem ao menos percebidos. No final das contas, todos estavam desejosos por serem amados. A propósito, Manuela escreveu uma nova carta ao Papai Noel. Seu maior desejo? Sentir que era importante para os seus pais…"

Texto escrito por: Maria Lúcia Putini Barsuglia

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